Entrevista B Quest

B Quest

Dantas: Quais foram os teus primeiros passos no Hip Hop?

B Quest: Antes de tudo, muito obrigado por este convite. Eu penso que sempre estive de alguma forma ligado a esta arte. Desde que me lembro, de muito novo mesmo, que tenho uma paixão imensa pela escrita, quer contivesse rimas ou não. Lembro-me que por essa altura o meu irmão também ouvia muito Rap, e eu sempre fiquei fascinado pela forma como as peças de cada trabalho eram montadas. Eventualmente essa minha paixão foi crescendo ainda mais, sendo que a partir de uma determinada altura eu já me via a escrever praticamente todos os dias. E com a ingenuidade e falta de conhecimento sobre o assunto, comprei algum material quando tinha uns 15/16 anos para gravar algumas cenas. Como não percebia nada da coisa na altura, o material foi um bocado obsoleto, mas permitiu que começasse a ganhar o gosto pelo som, pela forma que ele atuava, pelos DAWs, e por tudo que envolvia uma obra. Dessa forma, e numa primeira instancia, o meu primeiro registo era para estar relacionado com a gravação e mistura, através de uma ajuda que iria ser dada pelo Stonaka. Entretanto, e como fazíamos todos parte da mesma turma no secundário, começaram a surgir os Carpe Diem e essa aprendizagem da parte mais técnica do som passou para segundo plano, dando lugar às primeiras faixas gravadas, também no estúdio do Stonaka.



Dantas: Porquê o aka B Quest? Visto que começaste com "Bastos".

B Quest: Desde o começo que tive dúvidas em qual o nome certo a adotar. Na altura, ainda não me assumia a solo, logo era uma preocupação menor. Quando a altura chegou, tive mesmo muitas dificuldades nesse assunto, daí ter optado pelo meu apelido. Lancei umas quantas faixas ainda com esse nome, mas sentia que ainda não estava como eu queria. Depois comecei a pensar no EP e numa redefinição total do meu estilo, e isso acarretaria muito provavelmente uma mudança de nome. Para dar uma nova vida. Um dia surgiu-me o B Quest muito aleatoriamente. O B vem do Bastos, o Quest vem de uns dos meus all time favourites, A Tribe Called Quest.



Dantas: Quem são os Carpe Diem?

B Quest: Os Carpe Diem CHC (começamos apenas como Carpe Diem) são o primeiro projecto que tive dentro desta arte. Além de mim, temos o Zilla e a Carolina Silva. Tudo isto nasceu, e como já referi, do facto de termos feito o secundário juntos e de partilharmos os 3 um grande amor pela música. Tudo começou em 2014. Ao ínicio era para ser composto apenas por mim e pelo Zilla, mas logo na primeira faixa convidamos a Carolina a entrar e sentimos que ela tinha de integrar isto a tempo inteiro. Sabíamos que era arriscado, porque poucos grupos assumem a 100% uma voz feminina no seu projecto. Mas acho que isso foi o fator diferencial no nosso caso. Tivemos um hype muito bom tendo em conta que não lançamos nenhum projecto em concreto, tendo inclusive havido uns meses em que tocávamos praticamente todos os fins de semana. Demos inicio à gravação do EP, mas a cena acabou por ter de ficar em stand-by, assim como todo o projecto, porque nós necessitamos mesmo de estar juntos para que o trabalho aconteça, tanto em termos de escrita, como de melodias e de beats. Com a entrada na universidade veio alguma distancia física, estando até a Carolina fora do país neste momento. Encaramos sempre este projecto com muito afecto, mas sempre sem promessas e com um pensamento a longo-prazo.



Dantas: Queres falar um pouco do teu último EP Álibi?

B Quest: O Álibi surgiu numa altura em que eu senti uma necessidade tremenda de me expressar. Sentia-me mais capaz, mais conhecedor de mim próprio e daquilo que eu necessitava. Trabalhei mesmo muito para que este projecto visse a luz do dia. Tinha dois trabalhos e à noite tinha faculdade, e quando tinha umas horinhas de vago eram sempre gastas no estúdio a compor este meu primeiro CD, de forma completamente independente. Foi criado, portanto, numa altura em que eu me questionava muito, em que me informei e li bastante, procurei nutrir-me para que pudesse transmitir algo com fundamento para quem ouvisse isto. Sou uma pessoa que liga bastante ao conteúdo das faixas, e desse modo tentei sempre que cada uma abordasse um tema e transmitisse algum tipo de conforto, relação e empatia com quem as ouvisse. São 12 faixas divididas em 3 atos que separam 3 jornadas diferentes. O Ato I contém músicas mais ligadas à minha atitude para com o movimento. O Ato II é mais introspectivo, mais poético e mais carregado de mensagens escondidas. o Ato III serve mais como uma esperança de conseguir alcançar as metas que estabeleci. Penso que seja um trabalho adequado a uma escuta com atenção e repetida, porque geralmente as pessoas relacionam-se muito com o que lá foi transmitido.



Dantas: Qual foi o evento que gostaste mais de atuar?E como ouvinte qual te marcou?

B Quest: Antes de tudo, sou ouvinte. E nesse sentido já fui a alguns eventos de Hip-Hop que me marcaram bastante. No topo está o Super Bock do ano passado, em que pude ver numa noite muitos artistas que admiro, num ambiente surreal. Depois tenho 2 que me marcaram imenso também, no Porto. Um foi Talib Kweli no Hard, e o outro foi Virtus no Plano B. Ainda sinto arrepios de pensar neste último. Em termos de atuações, tive sempre a sorte de ser bem recebido em todos os locais. Há sempre um ou outro que te marca mais, quer seja por estar mais público, por saberem as faixas, etc... Apreciei muito o Ser Humano em Guimarães. Aliás, os concertos no São Mamede sempre foram pesados. Gostei muito também da Queima das Fitas aqui em Famalicão. 



Dantas: Qual a tua opinião do movimento em Portugal neste momento?

B Quest: Na minha opinião, o movimento está mais do que vivo! Há provas dadas por imensa gente, e há artistas para todos os gostos. Desde sonoridades mais old school, até algo mais moderno. Há que saber procurar aquilo que se gosta, e apoiar. Acho que ainda se observam muitas criticas sem razão de existirem. Temos é de cultivar em nós próprios a vontade de sermos melhores e de sentirmos essa evolução. Hip-Hop é união e é isso que devemos demonstrar. Para muitos isto é um sonho que, quem sabe, pode vir a ser realidade. Que não se criem utopias para que passados alguns anos hajam ainda mais talentos desperdiçados.



Dantas: O que achas que vai mal no mundo do Rap?

B Quest: Não gosto de ver as coisas por esse prisma. Claro que tenho as minhas reservas no que toca a muitos assuntos. Acho que ainda não referi, mas eu sou de Famalicão, uma cidade pequena que ainda está a lutar para entrar no "mapa" do Hip-Hop nacional. Tivemos e temos artistas que merecem mais do que isto. Todas as pessoas ligadas ao movimento e que são de cidades pequenas, provavelmente também sentem que "os olhos" do público estão maioritariamente virados para LX, para o Porto, etc... Eu também sinto um bocado isso, mas não o vejo como algo necessariamente mau. Vejo como um grande desafio pronto a ser superado, porque sei que é uma questão de tempo até que a atenção se vire para nós também.



Dantas: Tens alguma influência ou referência no Rap?

B Quest: Podia dar mais 4 ou 5 entrevistas que não iam ser suficientes para enumerar as pessoas que me influenciaram a fazer isto. Para começar, para além de rapper eu sou beatmeaker também. E é por causa disso que eu vejo alguns artistas com outra grandiosidade. Tenho várias influências porque eu não me limito a ouvir o trabalho de alguém. Se há algo que me capta a atenção, eu vou estudar a fundo esse artista, quer seja o seu esquema rimático, os seus instrumentais, o flow... Sou muito minucioso nesse sentido. E por isso mesmo há dois artistas na tuga que me fizeram aperceber que isto tudo pode ser ainda mais místico e mais grandioso do que aquilo que aparenta. Sam the Kid e Virtus. São os dois mc's e produtores, e identifico-me com eles a 300%. Até ao núcleo mesmo. Não há palavras para o que eles me fazem experienciar. O pessoal que entrou no "Álibi" a meu convite foi escolhido a dedo, porque de uma forma ou de outra tem sempre alguma coisa que admiro neles, e aproveito também para dar um grande obrigado a todos que me ajudaram nisto, e para que ele visse a luz do dia. Tenho também várias referencias no Hip Hop americano. J Dilla, A Tribe Called Quest, Nas, Cyne, Common, Dilated Peoples, 9th Wonder.... A lista continua.



Dantas: Sentes o reconhecimento do teu trabalho?

B Quest: Essa pergunta é pertinente. É um misto de emoções gigante. Tendo em conta que fiz isto de forma totalmente independente, consegui em 3 semanas vender 200 CDs e o número não pára de aumentar. Foi algo que ultrapassou a minha expectativa, e faz-me sentir que há pessoal que realmente sabe que um gajo pode crescer e que não tem problemas nenhuns de poupar o dinheiro de um maço de tabaco para investir em nós. É mesmo essa a realidade. Em termos de projecção online, não seria honesto se não dissesse que ambiciono sempre por mais. Mas isso como qualquer artista, e apenas porque sei o mercado que está envolvido na propagação online. Está a crescer aos poucos e isso é o que mais importa, e tenho o orgulho de poder dizer que quase todos os dias recebo algum tipo de mensagem de apoio ou de feedback positivo. Isso é que motiva um artista, é o impacto da transmissão da sua mensagem, e não a propagação em massa. Pelo menos é a minha forma de pensar. O objetivo principal é fechar concertos para que o trabalho possa ser exposto a novos públicos, e para provar que todo este esforço tem pernas para continuar a andar. E quem corre por gosto... Não cansa.



Dantas: Queres falar de projetos que tens para breve?

B Quest: Como referi, neste momento o principal foco é arranjar datas para continuar a apresentação do EP. Estou em estúdio outra vez, já a preparar algumas faixas novas. A seu tempo. Tenho entretanto vários convites, mais como produtor. Estamos também a organizar um projecto novo, mas esse ainda é surpresa. Para além da minha equipa base de concerto (Spectrum e Simon Kutz), estou também a trabalhar numas apresentações com o mano Mace, de Barcelos. Mas lá está, tudo pensado com afinco e a seu tempo.



Dantas: Uma palavra a quem te apoia.

B Quest: Tem sido fenomenal o apoio e todo o feedback em torno do EP. Sentir que as minhas palavras servem de motivação, de apoio, e de conforto para algumas pessoas faz-me o mais concretizado possível. Lutem pela luz que vos guia, porque ela está dentro de vocês. E estejam atentos, porque as novidades vão continuar a sair!



Dantas: Obrigado por aceitares o convite, continua a fazer o teu grande trabalho, estamos juntos EFHH.

B Quest: Muito obrigado eu pelo convite mais uma vez. É sempre um prazer trabalhar com a EFHH, mega apoio deste lado para este projecto. 


B Quest: Podem encontrar o meu trabalho no Facebook (B Quest), no YouTube (Canal: Carpe Diem CHC - EP completo lá), Soundcloud (B Quest), Instagram (_bquest). Encomendas do CD, bookings: bquest4760@gmail.com


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