Entrevista Cale

CALE

Dantas: Boas Cale, queres contar como foram os teus primeiros contactos com o "Hip-Hop"?

Cale: Boas EFHH e toda a gera que segue a vossa página. Os meus primeiros contactos com o Hip-Hop? O Hip-Hop e eu temos uma longa história. Mas resumindo um pouco, sempre fui ouvinte não sei bem onde começou, mas lembro-me de bem puto gostar de ouvir Black Company, Boss AC, Gabriel, Alex e os "Putos Do Bairro", mas ainda nem sonhava o que era o Hip-Hop. Os primeiros passos e o despertar da paixão foi por volta de 98/99 depois da mudança repentina do sul para o norte. Lisboa para trás, amigos para trás, e então o meu refúgio era a Valentim De Carvalho onde na altura trabalhava o Serial e eu colava-me lá a ouvir CD's. Mas no meio de tanta turbulência tive a felicidade de aterrar em Gaia onde a cultura na altura já estava forte (Gaiolin como era conhecida, como muitos devem saber) e para melhorar a situação a casa onde eu morava tinha como meu vizinho o Noir (membro dos Crime Sublime ou Circuito Secreto, nesses tempos) e foi esse grande irmão, pelo qual ainda hoje tenho uma grande amizade e admiração, que me viciou e mostrou realmente o que era esta grande cultura... Esse gajo é o grande culpado por esta relação. Por volta dos fins de 2000, já com bastantes horas como ouvinte, festas que para sempre vou recordar, principalmente no mítico HardClub, noites a acompanhar Noir em pinturas noturnas, fundei a minha primeira e ÚNICA crew, a crew "LWC" Long Way Crew. Primeira e única, porque para mim crew é família e nunca vi ninguém a trocar de família... De início éramos 3, depois a família aumentou, mas hoje somos bem menos e foi mais ou menos assim o meu início. Como disse eu e o Hip-Hop temos uma longa história isto foi só um resumo.



Dantas: De onde vem o nome " Cale"? Cale: O nome Cale nasceu comigo, vem de cigano, como sou conhecido entre amigos ou GPS (GiPSY) no graff e Cale na rima.



Dantas: Quando decidiste começar a gravar?

Cale: Foi quase tudo ao mesmo tempo. Nós éramos putos e tínhamos um sítio onde parávamos todos juntos, onde ia sempre aparecendo e desaparecendo gente. Na altura conheci o meu mano Posta, ele também pintava mas mandava umas rimas e houve uma vez que escrevi uns versos (bem podres) e mostrei-lhe... Então começamos a escrever juntos e cuspíamos lá no meio do pessoal até que começamos a ir lá para minha casa onde também parávamos e começamos a orientar uns instrumentais sacados da Internet e gravados para CD's. Eram ensaios diários, todos dias, de manhã era certinho o Posta a bater á porta. Orientamos uma guita e compramos um mic, ainda me lembro um mic Sony daqueles de supermercado bem podre que custou por volta de dois contos (10 euros), e começamos a gravar. Gravávamos as cenas tipo: uma aparelhagem, diskman ligado no auxiliar e gravar em cassete, grandes manobras!

As cenas foram se dando, fomos vendo como se fazia dica aqui e ali e fomos evoluindo.Mas a cena era só mesmo gravar para mostrar ao nosso pessoal não havia publicar na Net nem essas tangas, a cena era mão a mão na rua. 



Dantas: Queres nos falar de projetos passados?

Cale: Como disse anteriormente, a minha primeira cena foi com um amigo, formamos 33CMB, nome que até hoje é utilizado para identificar cá a zona... Acho que representamos bem, fizemos música juntos durante uns anos onde deixamos a mixtape "Coligação Verbal", fui gravando e escrevendo com várias pessoas, algumas continuam, maior parte abandonou, são vidas.

Em 2009 gravei a mixtape "Longa Caminhada" e em 2010 gravei a mixtape "Coimbrões Especial" onde tentei juntar toda a gente da zona para participar. Continuei a viver e a respirar Hip-Hop, a fazer a cena como sempre curti, escrever uma letra gravar e distribuir pelo pessoal mão a mão e assim continuei, escrever e gravar para quem queria ouvir, para quem parava comigo. Em 2014 entrámos num estúdio a sério. Eu, o meu mano Guna e o meu grande irmão eterno Fly, tínhamos um projeto com pernas para andar, gravamos umas faixas soltas que estavam a ser sentidas por quem as ouvia, estávamos a começar a dar uns concertos mas a vida é filha da puta e do nada tudo muda... DESCANSA EM PAZ MEU ANJO. 



Dantas: Quem é a Long Way Crew? Queres falar um pouco da história da mesma? 

Cale: LongWay, eram precisas horas e horas para falar desta família. Como o nome diz "Longa Caminhada". Somos uma família com 17 anos e como qualquer família tem uns que morrem outros que nascem, espero que o meu filho tenha nascido para ser LWC, mas como disse temos quase 17 anos respeitados pelos mais antigos, desconhecidos para alguns mais novos visto que não nos mantemos tão ativos...É uma história de família como qualquer crew de verdade, éramos unha com carne, aquelas amizades de miúdo que são mais fortes que tudo! Estávamos quase 24 sobre 24, sempre juntos, o que havia era para todos e não falo só de tinta, mas de irmandade, lealdade. Mas com os tempos as vidas mudam, pessoas seguem o seu caminho e hoje somos menos, bem menos. Um grande abraço ao meu mano MAIOR, aquele verdadeiro que não falha, estamos juntos nesta caminhada. Mas agradeço tudo que passei todas as alegrias e todas as chapadas, todo o tempo que investi deixando-me afastado de coisas bem piores, no fundo estou agradecido porque me ajudou a tornar no Homem que sou hoje.



Dantas: Visto que fazes isto há anos, achas que o Rap tem evoluído?

Cale: Já dizia os RZO... "Evolução é uma coisa, ohh"... Tenho visto mais modificação que evolução. Mas sim tem evoluído, não só o Rap mas toda a cultura, hoje vês o Hip-Hop em todo o lado desde TV, a rádio, em festivais, vês MC's com participações de MC's estrangeiros, como por exemplo do Brasil, Estados Unidos... DJ's brasileiros a fazer mixtapes com tugas,murais pintados legais o que á uns anos era raro ver, hoje tens murais cedidos pelo estado onde vês grandes obras a nível de qualquer país. Sim, vejo alguma evolução principalmente na discriminação social: hoje o Hip-Hop começa a ser visto de outra forma. 



Dantas: Como achas que está o movimento neste momento?

Cale: O verdadeiro movimento acho que está forte, tem bons mc's aí a espalhar a mensagem a fazer a cena com o mesmo fundamento, desabafar, mostrar a sua visão, tentar incentivar, tentar mudar a vida de alguém com as suas palavras até mesmo a própria. Hip-Hop está na moda, quem vive isto sabe o que estou a falar mas como toda a moda, um dia esta muda e esses que andam aí que não querem viver Hip-Hop, mas sim viver do Hip-Hop vão desaparecer como essas bandas de novelas e tangas assim, e aí esta cultura que anda um bocado contaminada por pessoas com necessidade de auto afirmação e vidas de sonho que só vivem mesmo em vídeo clips onde tudo é alugado, vão desaparecer, porque os fãs ou seguidores como eles lhes chamam começam a seguir outra moda e essa música que parece Rap vai deixar de bater.



Dantas: Que concerto te marcou como artista? E como ouvinte, o que nunca esqueces?

Cale: Essa é fácil, sem dúvida quando subi ao palco do HardClub! Foi mais que um concerto, foi o realizar de um sonho, acho que todo o MC que cresceu nas antigas festas do HardClub se imaginou um dia no seu palco. Como ouvinte tive várias, mas aquela que me lembro perfeitamente como se tivesse sido ontem foi Nach Scratch em 2008 em Santiago de Compostela. Nach sempre foi aquela influência tanto na música, como na orientação para a vida, posso dizer que sou fã do gajo. 



Dantas: Queres falar de projetos futuros?

Cale: Neste momento o tempo não são muitos mas estou aí a trabalhar numa mixtape e continuo em 213 a escrever as minhas rimas por isso quem está aí ligado a Cale que aguarde umas cenas novas para breve! 



Dantas: Que palavra tens a dizer a quem é "novo" nisto?

Cale: Essa é uma boa pergunta! Hip-Hop é livre, cada um faz como quer mas o que eu peço aos mais novos é que entrem nisto, e falo principalmente aos MC's, para manter a cultura como era, uma forma de vida, uma forma de ocupar tempo e não andar em outros caminhos, dar a conhecer a sua maneira de pensar, espalhar a tua mensagem tentando fazer com que sirva de exemplo para alguém dar a voz ao povo mostrando a revolta contra a injustiça e, principalmente, a união entre quem pertence à cultura. Não entrem nisto em busca de uma profissão, o que tiver que ser será e se poderem ganhar algum por valorizarem o vosso trabalho claro que é bem vindo. Agora para empobrecer esta cultura para tentarem enriquecer, como muitos hoje em dia andam a fazer, acho que nem vale a pena iniciarem.



Dantas: O que tens a dizer a quem te apoia?

Cale: A todos que me apoiam só tenho uma coisa a dizer, vocês são os culpados por Cale continuar na escrita. Um grande obrigado a todos pelo apoio que fortalecem.



Dantas: Obrigado por aceitares o convite, estamos juntos!! EFHH.

Cale: Obrigado eu, não só pelo convite mas por este vosso projeto que tem dado voz aos reais. Estamos juntos mano.


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